sábado, 17 de setembro de 2011

Como escrever uma crônica?

-Fiiiiilha, acorda! São 6:20 já, você vai se atrasar!
Com esse chamado, tento abrir meus olhos e levantar, afinal, mais um dia da minha adorável rotina está começando. Com a maior preguiça do mundo e, numa velocidade equiparada a de um tartaruga, tomo meu café da manhã, me arrumo, coloco o uniforme e lá vou eu para minha tortura matinal.
Para começar o dia muito bem, a primeira aula é de produção textual, a matéria cuja função é me deixar de recuperação! Como estamos no último bimestre, se eu não tirar uma nota acima de oito agora, já posso trazer o peru para comemorar o Natal e até, quem sabe, fazer minha matrícula como uma adorável repetente!
O professor entrou na sala todo animado, com um monte de textos e livros, e não parou de falar um minuto. Ele explicava alguma coisa que eu nem ouvia, porque eu estava numa conversa muito importante com a Lu, minha melhor amiga. Mas, fiquei quieta no exato momento em que ele pronunciou as seguintes palavras: "Então é isso, pessoal, vocês vão ter que escrever uma crônica para amanhã, valendo como a nota do bimestre."
E esse foi o fim do mundo para mim. Já não bastasse ter que escrever um texto para o dia seguinte, para ficar ainda melhor, o monte de letras que acabaria com a minha vida era uma crônica. UMA CRÔNICA!! Eu não gosto nem de escrever uma dissertação, em que a única coisa que tenho que fazer é defender minha opinião, que dirá uma crônica, que tem que imaginar. Eu não sou uma pessoa com uma imaginação muito fértil e não sei escrever isso, para falar a verdade, não sei direito como escrever esse tipo de texto, pois eu não prestei atenção na aula. Estou definitivamente perdida, ou melhor, repetida, já que ano que vem estarei no primeiro ano do ensino médio novamente!
Desesperada, começo a pedir para as pessoas as anotações que o professor passou sobre este temido gênero textual e, passo o resto das aulas tentando aprender sobre o assunto. Chego em casa, almoço rapidamente e sento na minha escrivaninha para começar a escrever. Segundo fui informada, o tema era livre, mas a crônica, conforme havia entendido das anotações dos meus amigos, se baseia em fatos cotidianos, coisas interessantes que acontecem na nossa vida ou, até mesmo, em notícias de jornais.
Começo a pensar sobre os fatos interessantes da minha vida. Percebo que não tem nada demais, não coisas que eu compartilharia com o professor, afinal, imagina se eu contasse das fofocas que fiquei sabendo sobre um pessoal da escola, ou sobre meu conturbados romance com o Fê, ou sobre minhas loucuras com minhas amigas. Com certeza, seriam histórias que teriam muita repercussão, iria ser a nova J.K. Rowling, mas são coisas particulares, não vou escrever isso para todo mundo ficar sabendo.
Decido, então, ler o jornal, para ver se acho uma notícia interessante. Procurei, procurei e o único jornal que achei na minha casa era de um mês atrás. Perfeito! Peguei aqui e, MINHA NOSSA SENHORA, QUANTA LETRA, cansei só de olhar! Porém, por um bem maior, começo a procurar por alguma coisa que me provocasse uma "reflexão sobre algo do dia-a-dia". Não achei nada interessante e, no meio da minha expedição, o telefone tocou. Era a Lu e, bem, como tinham muitos babados, acabei ficando uma hora e meia no telefone. Agora eu realmente precisava achar alguma coisa naquele jornal e o mais rápido possível.
Finalmente, depois de um alonga busca, encontrei uma notícia de uma mulher que tinha pedido sepração do marido, pois ele era muito vaidoso. Achei aquilo a coisa mais bizarra e resolvi tentar escrever uma crônica humorística sobre o assunto. A grande questão agora era: como começar?
Ligo o computador e coloco no Google: "como começar uma crônica". Enquanto abria a página, resolvi checar meu facebook, formspring, orkut, postar uns desabafos no twitter, conversar com a galera no msn, até que me lembrei do bendito intuito de eu ter ligado meu computador. Começo a ler uns textos que tinham aparecido, mas nada parecia bom o suficiente para o começo da minha redação. Precisava de algo perfeito!
Decido desligar o computador e tomar um banho, para ver se aparecia uma luz no fim do túnel, enquanto eu relaxava debaixo da água quente. Tenho, então, uma ideia sensacional, me enxugo rapidamente e saio correndo, ainda meio molhada, pela casa. Como quase não sou desastrada, levo um tombo e minha perna começa a sangrar.ÓTIMO, era tudo que eu precisava. Nessa situação, tive que perder meu preciosos tempo fazendo curativo e tentando fazer parar de doer aquele corte. Acabei esquecendo a minha ideia genial.
Um pouco melhor, sento na cadeira, porém não acho meu lápis, fico um tempo procurando e, quando finalmente acho, o interfone toca e tenho que ir pegar uma encomenda lá embaixo. Quando estou subindo, as luzes se apagam e o elevador para. Pronto, agora eu estava presa no elevador, sozinha, com um corte na perna, no escuro, com uma encomenda que tinha um cheiro hirrível e com minha escrivaninha me esperando, com uma folha de papel em cima, no qual deveria ser escrita um crônica.
Durante a uma hora em que fiquei presa, consegui ter uma ideia muito boa para escrever a crônica, ela estava praticamente pronta na minha cabeça, acho que o Chico Xavier tinha baixado em mim. Cheguei em casa e fui escrever. Foi o melhor texto que escrevi em toda minha vida, iria tirar uma ótima nota e não iria repetir de ano. Era bom demais para ser verdade.
Deixei a folha em cima da minha cama e fui jantar. Quando voltei, encontrei pedacinhos de papel picados pelo meu quarto inteiro, olhei para baixo e vi Damon, meu cachorro, com a única coisa que restava da minha crônica em sua boca: o pedaço em que meu nome estava escrito.
Nunca quis tanto matar alguém em toda minha vida, o que eu iria falar para o professo? "Meu cachorro comeu minha redação professo, aliás, era um texto magnífico, o senhor iria gostar". Óbvio que não iria adiantar, eu já havia dado essa desculpa uma vez, entretanto, agora era realmente verdade.
Desesperada, decido entregar uma cópia desse desabafo para o professor e, tudo que posso dizer, é que o primeiro dia de aula do segundo colegial está sendo maravilhoso.

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