quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Infidelidade Onírica

Tudo começou com um choro de mulher no apartamento vizinho. Era por volta das seis e meia da manhã - eu ainda tomava meu café - quando ouvi a mesma moça gritando e chorando. Não me assustei. Ela provavelmente estaria brigando com outro namorado, o que era muito frequente.
Eu não estava bisbilhotando, era simplesmente inevitável escutá-la. Frases como "E eu pensava que você fosse diferente! Mas não, vocês são todos iguais!". O tal homem tentava em vão acalmá-la. Ela chorava.
Comecei a me perguntar se ela tinha algum problema. Afinal, aquela deveria ser a quarta ou quinta vez que ela acordava em prantos e expulsava o namorado com a mesma ladainha. "Não é da minha conta", pensei. Fez-se silêncio.
De súbido ouvi ruídos como o de vidros se quebrando. O homem, já sem a paciência de antes, começou a gritar: "Você é louca! Não pode fazer isso! Pare!". Ela chorava ainda mais alto.
"Droga, tenho que me mudar logo daqui", lembrei. O lugar era terrivelmente barulhento. Qualquer tentativa de concentração era um fracasso. E eu ainda corria o risco de ser chamada de intrometida se tentasse interferir ou ajudar de algum modo. Impossível me manter no meu estado zen.
Agora era possível perceber que ela atirava as roupas dele pela janela, enquanto ele berrava: "O quê você quer que eu diga? Que estava bêbado? Que sinto muito por algo que..." - Não pude entender o restante da frase. Mas era visível que se tratava de traição, como das outras vezes.
Olhei para o relógio: Sete horas. Senti um certo alívio ao trancar a porta, e desci as escadas, disposta a recomeçar o dia. Porém esse alívio foi logo interrompido por um estrondo, seguido do barulho do homem descendo as escadas, revoltado. Passou por mim murmurando palavras impublicáveis. "Por Deus!", pensei.
- Curioso, não? - Era Dona Irma, outra vizinha que surgira, percebendo meu espanto.
- Mas o quê há de errado por aqui? Por que essa pobre moça não consegue achar sequer um homem fiel?
- Fiéis eles são... - Disse ela em tom misterioso.
- Então...? - A velha fitava o além. - Qual é o problema? - Perguntei outra vez, preocupada vendo que iria me atrasar.
- Eu disse que eles são fiéis. Nos sonhos dela é que não são.
- Como assim? - Perguntei por impulso, apesar de ter entendido bem.
- É isso mesmo. A moça sonha que o rapaz a trai, e assim que acorda quer tirar satisfações com ele. Ou seja, faz esse escarcéu.
Sem saber o que dizer, simplesmente saí, pensando: "Poxa vida... E eu preocupada em estar zen!"

Nenhum comentário:

Postar um comentário